Pequi é responsável pelo sustento de famílias na Chapada do Araripe
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| Foto: Arquivo - Fernanda Siebra/Diário do Nordeste |
A Chapada do Araripe, no Ceará, é um lugar em que as
tradições culturais ainda dependem, e muito, da natureza. Lá, de janeiro a
abril, a principal fonte de renda para as famílias do campo é o pequi. O fruto
nativo é colhido no chão da mata: uma atividade extrativista que se confunde
com a história da região.
A Chapada do Araripe é uma área de transição entre a Mata
Atlântica, a Caatinga e o Cerrado. O que confere ao lugar uma diversidade
incrível de fauna e flora. Foi no alto dos paredões dessa região, que o pequi
do Ceará encontrou seu ambiente ideal. E é dele que muitas famílias tiram o
sustento nos primeiros meses do ano.
Localizada na junção dos estados do Piauí, Pernambuco e
Ceará, a Chapada do Araripe tem mais de um milhão de hectares e abriga fazendeiros,
assentados, quilombolas e a floresta nacional, demarcada em 1946.
Em época de safra, o resultado da colheita se espalha no
acostamento da rodovia que une os municípios de Jardim e Barbalha. A clientela
sempre dá uma paradinha. “Levo para casa para comer com a família. Fazer uma
pequizada”, comenta o motorista Antônio Duarte Queiroz.
Para acompanhar a colheita do pequi na Floresta Nacional,
é preciso entrar na mata e ir atrás dos catadores. Logo cedo, eles se espalham
atrás dos frutos. O extrativista Vanin Galvão sai do acampamento de madrugada.
“Quem chegar primeiro cata o pequi. O pequi não é de ninguém. Dentro da mata é
liberado”, diz.
O saco, quando cheio, comporta em torno de 700 a 800
pequis. Basta um pouco de paciência para perceber a movimentação no meio da
mata e ver a safra sair carregada no ombro, na garupa da moto. “Deus deixou
essa árvore para dar esse fruto para ninguém morrer de fome. O pequi é vida”,
declara Aparecido José da Silva, extrativista.
Segundo o ICMBio, instituto que administra a Floresta
Nacional, todo ano, de janeiro a abril, cerca de dois mil catadores transitam
pelas trilhas. “Tem pequi para todo mundo e ainda sobra. Vamos ficar em torno
de quatro, cinco dias acampado aqui. No final vai dar para tirar uns R$ 1.500 a
R$ 2 mil. Esse dinheiro dura uns seis meses pra mim”, conta o extrativista
Odailo José de Souza.
O pouco que se consegue com a cata do pequi é muitas
vezes mais do que se tira com as roças tradicionais. Se o pequi dá renda, não é
preciso buscar trabalho em outro estado. “No ano que vem não tem o pequi, a
gente tem que viajar para São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás”, diz José
Joaquim dos Santos, extrativista.
O movimento dos agricultores de subir da serra atrás do
pequi da Floresta Nacional é tão comum, que muitos deles se mudam para a
chapada no período da safra e fixam acampamento bem ao lado da mata. Só que o
que até o ano passado era quase um improviso, hoje vem ganhando estruturas mais
duradouras.
A pressa nas obras tem a ver com uma expectativa, ainda
incerta, de que a energia elétrica está prestes a chegar na região. “A gente tá
derrubando a casa de taipa e fazendo de tijolo, porque tem que ser alvenaria
para chegar a energia”, diz a extrativista Maria das Dores Martins.
Em nota, a companhia responsável pela distribuição de
energia no Ceará, disse que não há data para a instalação da rede elétrica. Até
porquê ainda faltam alguns documentos obrigatórios, como por exemplo, a licença
ambiental.
O ICMBio vê com preocupação o surgimento desse vilarejo.
“Na época, eles faziam as barracas de metal ou de palha. Não traziam as
famílias. Só vinham as pessoas que iam trabalhar na coleta. Hoje não, eles já
começaram a trazer as famílias, os animais domésticos, as crianças. Não é
aconselhável, não tem qualidade para passar o dia aqui. Não tem água. Você pode
perder o controle. Fixar residência aqui, vizinho à floresta, vai ser um
problema tanto para a sociedade de uma maneira em geral, como para a natureza”,
comenta Pedro Augusto Carlos Monteiro, engenheiro civil e analista ambiental do
ICMBio.
É que qualquer ameaça aos 39 mil hectares da Floresta
Nacional pode desequilibrar o papel ambiental de toda a Chapada do Araripe, que
devido suas condições de clima e solo, acaba por regular as chuvas que ocorrem
na região.
“Uma região de Caatinga tem variação de 400 a 600
milímetros de chuva por ano. Aqui geralmente vai até 1.200”, explica Verônica
Lima, geógrafa, chefe do ICMBio da Floresta Nacional do Araripe e Apodi.
Inclusive, um passarinho da região tem tudo a ver com a
questão hídrica. “Ele é endêmico dessa região. Só ocorre aqui. É o
Soldadinho-do-Araripe, o Antilophia bokermanni, que ocorre na encosta,
principalmente próximo às fontes. Então, se ele está presente nessa encosta é
porque nossos recursos hídricos ainda estão aflorando em toda essa região. Ele
já esteve muito mais presente, mas tudo isso vai fazendo com que a espécie vá
desaparecendo”, alerta a geógrafa.
É nesse cenário, ao lado do Soldadinho-do-Araripe e
também nas propriedades particulares que rodeiam a Floresta Nacional, que o
pequi se destaca. Tanto na mata intacta quanto nas fazendas da Chapada, nenhum
desses pequizeiros foi plantado e o extrativismo dita a regra na região.
Por mais importante que seja o pequi em algumas regiões
do Brasil, em alguns lugares ele chega a ser até desconhecido. O fruto é típico
dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Ceará, que são os principais
produtores. Quando aberto, o pequi exala um perfume que é só dele. Dentro é
possível encontrar um, dois, três, quem sabe quatro caroços. São eles que têm
valor comercial.
Dentro de cada caroço, o pequi esconde uma infinidade de
espinhos. A cor pálida da polpa é uma das características do pequi que nasce no
Ceará - o Caryocar coriaceum - diferente do pequi de Goiás.
Pequi
e lucro
Na mesa, a pequizada está entre os pratos típicos da
culinária cearense e é esse sabor, único do pequi, que faz girar o comércio
dessa fruta.
“O pequi gera em torno de R$ 1,5 milhão em toda a região.
Aqui na Chapada do Araripe não tem nenhuma outra cultura que gira todo esse
dinheiro, porque eles só plantam mandioca e feijão”, informa Fátima Benício,
técnica em agropecuária da Emater/CE.
Uma das dificuldades nesse período de safra é fazer com
que o trabalho do agricultor renda o que realmente vale. É que com muito
produto no mercado, o preço do pequi despenca. No ponto alto da colheita, o
cento é vendido por R$ 3. Já na entressafra pode chegar a R$ 15.
Como o pequi é uma fruta que estraga fácil, não é
possível armazená-la in natura para vender mais tarde. A comercialização tem
que ocorrer em, no máximo, três, quatro dias. Mas dá para driblar esse curto
prazo de validade.
A extrativista Maria da Conceição vive numa comunidade de
quilombolas e lida com o pequi. Para fazer a safra durar, ela e seu marido,
Josiê Mariano Dias, trabalham hoje na produção do óleo do pequi. “Com o óleo,
eu tenho o que vender fora da safra”, explica.
Depois de descascar, ferver, ralar, ferver mais um pouco,
o óleo começa a se acumular na borda da panela. Depois ainda é preciso apurar
mais um pouco. “A gente pede R$ 100 em um litro de óleo. Serve para inchaço,
dor nas juntas. É uso medicinal”, explica Maria da Conceição.
Para também ter o pequi como poupança, a agricultora
Maria Silvana dos Santos comprou um freezer e uma embaladora a vácuo, com o
dinheiro que conseguiu através do Programa Brasil Sem Miséria. “A partir do mês
de maio, quando a safra do pequi acabar, eu começo vender o meu. Aí o preço
sobe. Nesse período, eu faço cerca de R$ 1 mil por mês”, conta.
Com a renda que Silvana conseguiu na entressafra do ano
passado, ela já vai aumentar a capacidade de congelamento de seis mil para 12
mil pequis. “Eu já fiz uma compra de outro freezer. Esse ano eu vou com tudo.
Se Deus quiser, promete”, declara a agricultora.
Fazer óleo ou congelar o pequi são dois jeitos de
aumentar a renda dos pequenos agricultores da Chapada do Araripe. Para isso, o
papel da assistência técnica é essencial.
Fonte:
Globo Rural
Tags:
Cariri
