O Ministério Público Federal (MPF) denunciou, à Justiça
Federal, três pessoas acusadas de submeter uma venezuelana a trabalho em
condição análoga à de escravo nos municípios de Russas e Juazeiro do Norte, no
Ceará. A vítima, Yorgelis Carolina Del Valle Quijada Zamara, foi trazida de Boa
Vista, em Roraima, e mantida em cárcere privado para sujeitar-se a condições
degradantes de trabalho após ser agenciada pelos denunciados Eugênia Michelly
de Oliveira Queiroz, Cosma Severina da Silva e José de Arimateia Alecrin de
Figueiredo. Os três foram denunciados por tráfico de pessoas, cárcere privado e
escravidão. Somadas, as penas de cada réu podem chegar a 24 anos de prisão.
Quarto onde a estrangeira ficava. (Fotos: MPCE/Divulgação)
De acordo com a denúncia, de autoria do procurador da
República Celso Leal, a denunciada Eugência Michelly intermediou a ida da
vítima Yorgelis de Roraima para o Ceará, sob a falsa promessa de trabalho e
remuneração. As investigações apontaram, porém, que a vítima foi explorada
desde o início, trabalhando por duas semanas no município de Russas sem ter a
carteira assinada e sem remuneração. Na sequência, a venezuelana foi mandada
para Juazeiro do Norte para que prosseguisse a exploração do trabalho em uma
chácara e na residência da denunciada Cosma, que manteria vigilância sobre a
vítima. A rotina de exploração permaneceu por cerca de três meses, sem Yorgelis
nunca ter recebido qualquer contrapartida a título de remuneração em dinheiro
(ou qualquer outra forma, além de precária alimentação).
A denúncia detalha que a venezuelana emigrou para o Brasil
de forma legal, pela cidade de Pacaraima (RR) em maio de 2018 e depois foi para
Boa Vista, em busca de emprego, onde foi acolhida pela ONG Trabalhar para
Recomeçar. A denunciada Eugênia contatou, então, a ONG informando que pretendia
empregar duas venezuelanas em atividades domésticas. Assim, membros da ONG
disseram à vítima que tinham conseguido um emprego de serviços domésticos no
estado do Ceará. Concordando com a proposta, realizou-se um Termo de Aceitação
de Proposta entre a vítima e a denunciada, por meio do qual Yorgelis prestaria
serviços domésticos na cidade de Russas, na casa de Eugênia, pelos quais seria
remunerada em R$ 954,00 mensais.
Ao chegar ao Ceará, a vítima passou a trabalhar todos os
dias da semana, sem direito a descanso, assinatura de carteira de trabalho e
salário. Sua jornada laboral começava às 6 horas na residência de Cosma. Após,
ainda sem se alimentar, era levada pelo denunciado José de Arimatéia à Chácara
de Eugênia para limpar o jardim e aguar as plantas. Ao entrar no terreno da
chácara, o portão era trancado para que não saísse. Como não tinha direito ao
café da manhã, para não ficar com fome, alimentava-se de mangas existentes na
chácara. Somente o almoço era-lhe fornecido e entregue por Arimateia. Ao final
do dia, era buscada na chácara e retornava para casa de Cosma, onde prosseguia
com as atividades domésticas.
O procurador da República Celso Leal detalha que as
investigações mostraram que a vítima sempre estava acompanhada de Cosma ou de
José de Arimateia; caso contrário, era mantida trancafiada, sem acesso a
telefone, internet ou qualquer outro meio de comunicação, inclusive contato
externo, razão porque não tinha como socorrer-se sequer de vizinhos. Yorgelis
dormia de rede na casa de Cosma em uma biblioteca que fazia as vezes de quarto,
mas seus pertences eram guardados em sacolas e mochilas dispostos em um
corredor da casa, os quais, certa vez, foram revirados para a retirada de seus
documentos.
A denúncia do MPF aponta ainda que a vítima era proibida de
usar o banheiro para fazer as necessidades fisiológicas ou até mesmo escovar os
dentes, só tendo autorização de fazê-lo na chácara de Eugênia. Quanto à
alimentação, somente lhe era permitido comer após todos os outros da casa, não
podendo acessar a geladeira. Não tomava café da manhã, tendo direito apenas ao
almoço e jantar. "Além disso, sofria constantes humilhações por parte de
Cosma, que afirmava que ela não sabia fazer nada e que seria deportada para seu
país de origem", diz trecho da denúncia.
Para o MPF, a denunciada Eugênia é líder do grupo criminoso
e principal responsável pelos crimes praticados contra Yorgelis, assim como, a
maior beneficiária. Em medida de busca e apreensão solicitada pelo MPF na
residência de Cosma e de José de Arimateia, foram encontrados diversos
documentos relacionados a estrangeiros e a Eugênia, indicando que a denunciada
possivelmente não praticara tal conduta pela primeira vez. As investigações
mostraram também que, para ocultar o intento criminoso, Eugênia passou a negar
e prestar informações falsas à ONG Trabalhar para Recomeçar.
MPF/CE
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