Aprovação do reajuste (16,38%) de salário de ministros do
Supremo Tribunal Federal (STF), realizada ontem em votação no Senado, vai
provocar um impacto anual nas contas públicas de R$ 4 bilhões, segundo cálculo
feito pelas consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado.
Motivo: o aumento gera um efeito cascata, uma vez que o
valor da remuneração dessas autoridades é o limite máximo estipulado para os
ganhos do funcionalismo. Além disso, algumas categorias têm suas remunerações
atreladas às dos ministros.
Só no Poder Judiciário, o impacto projetado chega a R$ 717
milhões. Para o Ministério Público da União, o incremento é de R$ 258 milhões.
No caso do Poder Executivo, o efeito pode ser de outros R$ 400 milhões. Além
disso, o impacto pode ser de R$ 2,6 bilhões nos entes da Federação, como os
estados.
O presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), havia
incluído na pauta o projeto que aumenta o salário dos ministros. Parlamentares
foram pegos de surpresa. Eunício, logo após a votação, defendeu a medida e
minimizou seu impacto no Orçamento. "Não haverá aumento do teto do gasto
dos órgãos", afirmou, após a votação.
A regra de teto de gastos limita o aumento das despesas dos
órgãos da União à inflação do ano anterior.
Com o reajuste de 16,38%, o salário de um ministro do STF
passa de R$ 33,7 mil para R$ 39,3 mil. Na votação de ontem, foram 41 votos a
favor, 16 contra e uma abstenção. O texto depende de sanção do presidente
Michel Temer para entrar em vigor. Em seguida, também foi aprovado o aumento no
mesmo valor do salário do procurador-geral da República, em votação simbólica,
o mesmo de um ministro do STF.
Próximo governo
O senador Fernando Bezerra (MDB-PE) disse, durante leitura
de parecer no plenário, que o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, se
comprometeu a acabar com o auxílio-moradia. O fim do penduricalho dos juízes de
todo o Brasil, hoje em R$ 4.377, diz o senador, diminuiria o impacto nas contas
públicas. Uma ação contra o benefício aguarda por julgamento no STF e está sob
relatoria do ministro Luiz Fux.
Toffoli, após a aprovação, disse que agora enfrentará o
problema do auxílio-moradia pago aos magistrados e membros do Ministério
Público. "Com a aprovação do novo subsídio, nós poderemos então resolver
então essa questão do auxílio".
O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) disse, antes da
votação, que "não é o momento de reajustar o salário do Poder
Judiciário".
"Nós estamos terminando um ano com déficit, vamos
começar o outro ano com déficit", afirmou.
Opositores de Bolsonaro também se colocaram contra o
projeto criticado pelo presidente eleito.
"É de uma irresponsabilidade enorme fazermos isso não
com o presidente eleito, mas com o País", afirmou o senador Randolfe
Rodrigues (Rede-AP). "Nós estamos trabalhando no escuro", afirmou o
senador Roberto Requião (MDB-PR), durante a sessão de votação.
Já Romero Jucá (MDB-RR) negou que se aumentarão as despesas
do Judiciário para o novo governo.
"O teto será cumprido. Não estamos aqui discutindo
aumento de gasto do Poder Judiciário", disse.
Ele afirmou que, por causa da aprovação do teto de gastos,
o valor de aumento de salário seria compensado em outros gastos do Poder.
Gastos
Segundo dados do Tesouro Nacional, o Judiciário já havia
ampliado seus desembolsos em 8,8% no primeiro semestre deste ano. A variação é
mais alta que os 7,2% permitidos pelo teto de gastos para este ano. O
Judiciário de todo o País, segundo o Anuário Justiça em Números 2018, bateu o
recorde em gastos com despesas com pessoal. Em 2017, a remuneração custou R$
82,2 bilhões ao país-90,5% do Orçamento do Judiciário.
O projeto para reajuste dos ministros do Supremo estava
parado no Senado desde 2016, após aprovação na Câmara. Em agosto deste ano, o
Supremo aprovou uma proposta orçamentária para 2019 que prevê o mesmo reajuste
salarial de 16,38%.
Após a aprovação pelos ministros, o presidente Michel Temer
recebeu Toffoli para discutir a questão do aumento salarial. Toffoli, e a
procuradora-geral da República, Raquel Dodge, mantiveram contato com o
presidente do Senado para articular apoio à votação dos reajustes. Houve
mobilização nos bastidores e a votação, na véspera, de um requerimento para que
fossem incluídos em pauta, mesmo sem consulta de praxe aos líderes de bancada.
A votação do reajuste surpreendeu associações de classe de
magistrados e procuradores.
Fonte: Diário do Nordeste
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