Foto: Renato Jorge
Não é raro um suspeito ser preso no Ceará e, quando o nome
é consultado no sistema de verificação de antecedentes, haver uma longa lista
de outros delitos cometidos por ele. Pessoas com 10, 20, 30 crimes registrados
contra si, muitas vezes sem julgamento. De janeiro a agosto deste ano, 10.812
capturados pela Polícia eram reincidentes, conforme a Secretaria de Segurança
pública e Defesa Social (SSPDS).
Muitas vezes, nem os próprios presos sabem dizer qual a
situação deles perante à Justiça. A ressocialização demonstra falhas. Se os
detentos fossem preparados para serem reinseridos no convívio com a sociedade,
novas tragédias poderiam ser evitadas.
Já se tornou comum após a notícia de crimes graves, a
divulgação de outras ações em que os suspeitos estavam envolvidos. Em 2018,
pessoas que já haviam sido presas foram novamente capturadas pelo suposto
cometimento de chacinas, latrocínios (roubos seguidos de morte), ataques contra
instituições financeiras, e até mesmo atentados contra policiais.
Em algumas situações, o criminoso já havia burlado medida
cautelar a qual respondia, e retirado a tornozeleira eletrônica horas antes de
mais uma infração. De acordo com a juíza titular da 2ª Vara de Execução Penal
de Fortaleza, Luciana Teixeira, a estimativa do índice de reincidência do
Estado é de 70%.
Conforme levantamento da SSPDS, em abril de 2018, o índice
chegou a alcançar 77,5%. Em entrevista exclusiva ao Sistema Verdes Mares, o
titular da Pasta, André Costa, ressaltou que as estatísticas da Secretaria
mostram que a cada quatro presos, três reincidem. A proporção revela que mais
da metade daqueles que infringiram a lei uma vez, voltaram a desafiar a
Segurança Pública e o Poder Judiciário.
O secretário alerta que a taxa é alta e precisa ser
reduzida, a partir de um trabalho conjunto. "Percebemos que por trás dessa
taxa alta de pessoas que voltam a delinquir, está uma sensação de impunidade.
Para não ter essa sensação é preciso que prendamos e que o trabalho seja
continuado. Uma das questões é a audiência de custódia: Parte desses presos é
liberada lá. Entendo que deveria ter um filtro, conforme a gravidade do crime,
para alguns nem passarem por audiências de custódia", disse André Costa.
Média
O Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE) informou
que em nível nacional o percentual de reincidências também gira em torno dos
70%. Não há dados formais dos crimes mais cometidos no Ceará, mas, conforme
percepção do Tribunal, os delitos mais comuns são furto, roubo e tráfico de
drogas.
Tráfico
No histórico sobre a natureza dos crimes mais comuns, o
tráfico de drogas ocupa a primeira posição, de acordo com a SSPDS. Em seguida,
em ordem decrescente vem o roubo à pessoa, furto, receptação, lesão corporal
dolosa, homicídio doloso, porte ilegal de arma de fogo, ameaça e posse
irregular de arma de fogo de uso permitido.
Pessoas com piores condições financeiras e de baixa
escolaridade estão entre a maioria dos reincidentes. A juíza,Luciana Teixeira,
explica que o perfil destes criminosos no Ceará é o mesmo há décadas, e se
repete nos outros estados do Brasil. Para ela, a disseminação das facções
criminosas não interferiu nos índices.
"Antes mesmo deste fenômeno das facções, a porcentagem
de reincidentes já era essa. O que vem crescendo é o número de reincidentes por
tráfico de drogas. Os dados mostram que 25% reincidem devido a esse tráfico. A
porcentagem de Crimes Contra o Patrimônio é de 33%, é a maior. O restante é bem
diverso", afirmou a magistrada.
Fonte: Diário do Nordeste
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