Denúncias por intolerância religiosa caem em 2019 no Ceará
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Patrimônio
imaterial, Festa de Iemanjá é celebrada todos os anos, no mês de agosto. - Foto: Kid Júnior
As manifestações da fé
carregam uma beleza que perde espaço quando é alvo de preconceito e
discriminação. O cenário fica explícito no Dia Internacional da Tolerância,
lembrado hoje (16), no momento em que uma lupa é posta sobre os casos de
intolerância religiosa: conforme levantamento do Disque 100, 63 denúncias de
agressões ligadas à religião foram registradas no Ceará, entre 2012 e 2018.
Neste ano, até julho, dois casos foram reportados. Apesar da redução, há
reclamações de demora na conclusão das investigações.
Das oito denúncias registradas
no Estado, no ano passado, metade aponta o desrespeito com praticantes da
Umbanda, outras duas atingem o Candomblé, uma o Espiritismo e outra não teve
religião informada, característica que se repetiu nos dois registros feitos em
2019. Ainda de acordo com o relatório do Disque 100, a maioria das agressões
atinge a vítima dentro de casa e é praticada por vizinhos - dado consonante com
a situação vivenciada pelo babalorixá Léo Ty Osun, sacerdote do culto do
Candomblé. Desde 2012, foram 40 denúncias do tipo.
"Eu tenho 25 anos no
Candomblé e uma casa aberta na Maraponga há dez anos. Tinha vizinhos que
jogavam pedra, coco e tijolo na minha casa. É absurdo você viver num país em
que as pessoas se incomodam com a sua forma de crer", lamenta o religioso,
que leva como missão o trabalho de desmitificar a imagem deturpada que uma
parcela da sociedade tem sobre a crença.
Demora
O próprio babalorixá relembra
que já recorreu ao Disque 100 depois de sofrer violência verbal, mas considera
a ferramenta ineficiente. "Tive de denunciar, mas só três anos depois foi
notificado à delegacia. Tomei um susto, pois nem me lembrava da denúncia",
critica. A situação discriminatória, então, foi resolvida no diálogo - mas ele
reconhece que nem todos os casos são simples de solucionar, principalmente
quando as vítimas temem denunciar. "A denúncia vem acompanhada do medo de
uma represália e de que as pessoas lhe identifiquem. Muitas pessoas não
denunciam por medo", frisa.
Penalidades
O professor do Departamento de
Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador da temática
religiosa, Christian Dennys, corrobora com a deficiência na resposta às
denúncias. "Uma das dificuldades, em termos de direitos, é detectar se é
religiosa, sexual, se passa por questão racial, se envolve vínculo de pobreza
ou não", afirma. "Uma associação tem o cuidado de receber denúncias -
algumas avançam, ou não avançam porque o campo de provas é muito difícil. Se
você não tratar isso correlacionando com outras intolerâncias, fica muito
difícil", explica.
Saída
Segundo Christian Dennys, a
intolerância é, muitas vezes, "alimentada" dentro das próprias
religiões predominantes. "São dois tipos de intolerância: a que parte para
agressões verbais e físicas diante das manifestações religiosas, tanto em
praças públicas e templos como nas redes sociais; e o comportamento implícito,
que está no ato de fazer manifestação religiosa baseada em uma guerra de
números", fundamenta.
Especialista e vítima
convergem sobre saídas para o atual ambiente hostil. Um dos principais pontos é
respeitar as diferenças. "Alimentar uma intolerância cultural generalizada
está reproduzindo um campo de dificuldade de lidar com pluralidade",
acentua o pesquisador. Enquanto Léo Ty Osun promove arrecadação de materiais
para doar a instituições beneficentes da cidade e distribui material
informativo em comunidades.
Para o religioso, o caminho
está nas escolas e na educação familiar. "Todos esses problemas estão
ligados à educação, a um País que não trabalha com o futuro. As escolas, os
professores e as famílias é que vão moldar o caráter para criar futuros adultos
tolerantes, conscientes de que cada um tem um estilo de viver e de crer",
pontua.
Fonte:
Diário do Nordeste
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