Pelo menos 41 casos de decapitação foram registrados no Ceará nos últimos três anos
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Um levantamento realizado pelo G1 revelou que pelo menos 41
casos de decapitações foram registrados no Ceará, entre 2017 e 2019. Os dados
foram obtidos a partir de reportagens publicadas sobre ocorrências do tipo nos
últimos três anos. A Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) não dispõe de
estatísticas específicas sobre estes casos.
Em 2017, foram registrados 14 casos. No ano seguinte, o
número cresceu para 25. Neste ano, apenas dois casos ganharam notoriedade. Um
deles ocorreu no dia 25 de novembro, quando o cadáver de uma mulher foi
encontrado sem cabeça boiando em uma das margens do Rio Cocó, em Fortaleza. No
mês anterior, o jovem Lucas Emanuel de Oliveira foi decapitado em Caucaia, na
Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). A cabeça dele estava dentro de uma
mochila, ao lado do corpo.
Das 41 vítimas, 28 eram homens, dez eram mulheres, e três
não tiveram o sexo identificado. A maioria das decapitações ocorreu em
Fortaleza e em municípios da RMF, como Caucaia, Aquiraz, Pacatuba, Maracanaú e
Eusébio. No Interior do Ceará, houve registros nas cidades de Catunda,
Quixeramobim e Palmácia.
Grupos
criminosos
Decapitações e esquartejamentos se tornaram atos cruéis
realizados por grupos criminosos que atuam no Ceará, nos últimos anos. Uma
fonte da Polícia Civil do Ceará, que preferiu não ser identificada, lembra que,
em 2017, era comum o compartilhamento de vídeos do crime “como forma de
intimidar a Polícia e as outras organizações criminosas rivais.” “Eles faziam
questão de agir como grupos terroristas, que filmam aquelas mortes”, analisa.
O modelo “Estado Islâmico”, em alusão ao grupo extremista
sírio-iraquiano, chegou a ser sugerido para as execuções de três mulheres
torturadas e decapitadas num mangue do bairro Vila Velha, em Fortaleza, em
março de 2018, de acordo com o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE). Os
vídeos chegaram a ser compartilhados em redes sociais.
“Eles queriam evoluir para um cenário de terrorismo, que é
acima do crime organizado. Aqui no Estado, a gente teve a época das gangues;
depois, evolui-se pro crime organizado e eles tentam, mirando outros países,
intitular-se terroristas”, afirma.
Reginauro Sousa, presidente da Associação dos Profissionais
da Segurança (APS), explica que, para ganhar status dentro da facção, alguns
membros exibem “essa crueldade sem limites, sem nenhuma dose de humanidade, sem
piedade nenhuma.” “É a volta à barbárie, ao mais absurdo estado primitivo”,
pondera.
Até os profissionais de segurança são afetados. “Os efeitos
psicológicos desse tipo de situação são silenciosos. Muitas vezes, o militar,
por obrigação da farda, da função que ele ocupa, acaba tentando transparecer
uma insensibilidade a esse tipo de problema, como se aquilo não mais o
afetasse, mas não podemos nos tornar alheios à dor”, diz Reginauro.
O sociólogo Luiz Fábio Paiva, do Laboratório de Estudos da
Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC), analisa que, além de
sujeitar o outro a uma “dor terrível”, a decapitação é uma maneira de “destruir
sua dignidade por meio da separação de seus membros, gerando efeitos em toda
comunidade da qual a vítima faz parte.”
O pesquisador também pondera que tal violência faz parte de
“um sistema de vingança que se reproduz diante da omissão do Estado em promover
outras sociabilidades e soluções para os conflitos que percorrem, sobretudo, as
periferias”. “Infelizmente, as instituições públicas fracassam em não saber ler
os códigos e propor soluções para uma situação que afeta, sobretudo, pessoas
negras, pobres, mulheres, crianças, entre outros”, avalia.
Queda
nos números
Reginauro Sousa também pontua a queda no número de
homicídios e de crimes cruéis, em 2019, ainda que “as facções continuem
presentes, continuem fortes”. “Reduzimos os índices, mas ainda não resolvemos a
guerra”, diz.
A fonte da Polícia Civil destaca que o recuo do problema
passa pelo enfraquecimento do poderio financeiro dos grupos criminosos.
“Estamos dando o recado. Quando você prende os líderes, fica o recado para os
que estão aqui: ‘se fizer, vai ser preso’. Tenho certeza, até pelos números de
redução de homicídios, que nós estamos conseguindo diminuir esses crimes de
forma cruel”, diz.
Fonte:
G1 CE
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