Ceará tem média de 150 doadores múltiplos de órgãos por ano
Mumbai
Ahmedabad
Doação
de órgãos para transplantes ainda enfrenta resistência de familiares. - FOTO: YAGO ALBUQUERQUE
A dor foi aguda, indescritível
e tão repentina quanto a colisão entre dois veículos no trânsito, quando a
professora aposentada Marilena Menezes, 53, recebeu a notícia da morte do
esposo, Carlos Alberto da Silva. O cérebro se foi primeiro do que o resto do
corpo, fator que permitiu que seis órgãos dele fossem doados a pacientes que
necessitavam de transplantes. No Ceará, 845 pessoas doaram órgãos de 2015 a
2018, e cerca de 70% delas foram "doadoras múltiplas".
Os dados são da Associação
Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgados nessa segunda-feira
(25). De acordo com o levantamento, foram registradas 603 doações múltiplas de
órgãos em todo o Estado nos quatro anos anteriores, uma média superior a 150
por ano. Em 2019, entre janeiro e setembro, 116 pessoas entraram para as
estatísticas como doadoras múltiplas, apenas cinco a menos do que no mesmo
período de 2018, que registrou 121 casos deste tipo no Ceará.
A coordenadora da Central de
Transplantes do Ceará, Eliana Barbosa, explica que os números poderiam ser
ainda maiores, mas que a doação múltipla no Brasil tem critério restrito.
"A retirada de órgãos aqui só pode ser realizada quando há o diagnóstico
de morte encefálica. Em alguns países desenvolvidos, como Espanha e Estados
Unidos, eles tiram órgãos de doadores em parada cardíaca. Aqui no Brasil, se o
coração para e tudo é mantido artificialmente, mas não há morte encefálica,
perdemos os órgãos".
No caso do esposo de Marilena,
a condição para retirada dos órgãos saudáveis era uma só: autorização da
família. "O pessoal do hospital me chamou e, naquele momento, eu disse que
não permitia. Depois, liguei pra mãe dele e ela disse que poderia doar, porque,
desse jeito, ele poderia ajudar tantas pessoas que estavam esperando na fila, e
ela teria essa lembrança", relembra a professora aposentada.
Cinco
vidas
Foram doados, então, o
coração, as córneas, os dois rins e o fígado de Carlos Alberto. Em todo o
processo, pelo menos cinco pessoas ganharam uma nova oportunidade de viver de
forma mais saudável. "Insisti pra descobrir quem eles eram e reuni todos
na missa de um mês de morte. Foi muito emocionante, eles pareciam pessoas da
família, sabe? Só em saber que ele podia salvar outras vidas e que tinha um
pedaço dele vivendo naquelas pessoas, foi muito reconfortante",
emociona-se Marilena, ressaltando que "nunca se esquece" do esposo e
desejando que "outras pessoas também façam isso, porque ajuda muito a
superar a perda".
De 2014 até o ano passado, a
quantidade de cearenses que doaram órgãos oscilou: naquele ano, foram 220
doadores efetivos, número que caiu para 206 no ano passado. Já em 2019, até
setembro, foram identificados 442 "doadores potenciais", como classifica
a ABTO, mas somente 183 doações foram concretizadas. Entre os motivos para esse
déficit, além de questões médicas, estão os casos de recusa por parte dos
familiares, que já totalizavam 111 até o nono mês deste ano.
Desafios
A conscientização deles no
momento da perda, segundo Eliana Barbosa, é um dos principais desafios para
aumentar ainda mais as doações de órgãos no Estado, "que tem a
solidariedade por vocação". "As recusas se devem a uma desinformação
por parte da população. Vamos para fábricas, escolas e universidades levando
temas relacionados. Uma vez que a família é bem acolhida durante o internamento
do ente querido e que os profissionais fizeram uma comunicação adequada, isso
facilita, as famílias doam", pontua a coordenadora.
A solidariedade e as doações
múltiplas contribuem para ampliar, ano a ano, uma estatística importante para a
saúde no Estado: em 2009, foram concretizados 760 procedimentos no Ceará,
número que avançou gradualmente até 2016, quando houve um pico de transplantes
e foram realizadas 1.874 cirurgias deste tipo. De 2016 até 2018, houve queda na
realização dos procedimentos, mas a quantidade se mantém mais que dobrada em
relação a 2009: ano passado, foram 1.535 transplantes concretizados, 101% a
mais que há dez anos.
Doe
de Coração
Para conscientizar sobre a
importância da doação de órgão, a Fundação Edson Queiroz promove, desde 2003, o
Movimento Doe de Coração. Em setembro deste ano, além de debates, palestras e
caminhada, a campanha instalou "selfie points" em locais estratégicos
da capital, como praças e terminais, para incentivar a gravação de vídeos
opinando sobre o assunto.
Neste ano, somente até 22 de
novembro, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), já foram
realizados 1.369 transplantes, sendo 805 de tecido ocular (786 de córnea e 19
de esclera), 240 de rim, 191 de fígado, 106 de medula óssea, 21 de coração,
três de rim e pâncreas e mais três de pulmão.
De acordo com a coordenadora
da Central de Transplantes do Ceará, a capacidade de contribuição de um
paciente vítima de morte cerebral para salvar ou melhorar outras vidas poderia
ser ainda maior, mas requer estrutura. "Para retirada de alguns tecidos,
precisamos de um banco de multitecidos. No Ceará, temos de córnea e de cordão
umbilical - este queremos transformar em um de multitecidos, mas ainda é um
projeto incipiente, está em discussão", relata Eliana. A medida
possibilitaria que as unidades de saúde "captassem pele e ossos, que não
são vitais como órgãos, mas dão qualidade de vida" a que os recebe.
Segundo Eliana, uma só pessoa
com morte encefálica - e cuja doação dos órgãos e tecidos é autorizada pela
família - é capaz de beneficiar até 60 outras vivas. "Órgãos para doar são
dois rins, dois pulmões, um fígado, o pâncreas, o coração e o intestino. Mas quando
entram tecidos, como válvulas cardíacas, pele, ossos e córneas, pode beneficiar
um leque bem maior de receptores. Estamos trabalhando para proporcionar
isso".
Diário do Nordeste
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